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Orientações, Grupos de Trabalho, etc.

Orientações

Algumas lições gerais para a vida, inclusive para a monografia.

Minhas sugestões para você, que faz sua pesquisa científica com um orientador.

1a. Seja digno de si mesmo e de seu orientador.

New entrants to the Shumpukan were told: “The purpose of Muto Ryu swordsmanship is not to defeat others in contests; training in my dojo is to foster enlightenment, and for this you must be willing to risk your life. Attack me any way you wish. Do not hold back!” After knocking the novice to the floor, generally with a dynamic thrust, Tesshu would shout, “Get up and come at me again!” This would continue until the candidate dropped from exhaustion.Tesshu might keep up such treatment for a week in order to test the determination of the prospective trainee. Technical ability did not matter at all; if the candidate’s spirit was strong, he was selected for admittance.

John Stevens, The sword of no-sword – life of the master warrior Tesshu. Shambhala, 1989,  p.39.

2a. Seu pai, sua mãe ou seu nome não valem nada em si.

Tesshu’s life bridged the time between feudal and modern Japan. Tesshu held a position as a bodyguard for the last Togugawa Shogun. Tesshu even played a role in the transition of power. Then Tesshu became a tutor for the Emperor Meiji during the emperor’s early adulthood.

On one occasion the young emperor challenged Tesshu to a wrestling match. The emperor enjoyed sumo wrestling but he had acquired the inappropriate habit of challenging his aids to impromptu wrestling matches. On one occasion, following a bout of sake drinking, the emperor challenged Tesshu to wrestle. When Tesshu refused the challenge, whereupon the emperor tried to push and pull Tesshu, but the emperor found Tesshu to be immoveable. Then the emperor tried to strike Tesshu, but Tesshu moved slightly aside. The force of the emperor’s blow caused him to fall down, whereupon Tesshu pinned the emperor to the ground. The emperor’s other aids were furious with Tesshu and demanded that Tesshu apologize to the emperor. Tesshu asserted that he was in fact doing his duty and would commit suicide if the emperor requested, but he would not apologize. The emperor saw the wisdom of Tesshu’s way and gave up (temporarily) both wrestling and drinking. From then on Tesshu was one of the emperor’s most trusted advisors.

On another occasion, the emperor, observing how worn Tesshu’s clothing was, gave Tesshu some money to buy new clothes. Tesshu, however, had little regard for material possessions and gave the money to the numerous poor people who sought the hospitality of his household. The next time Tesshu appeared before the emperor, he was wearing the same old clothes.

“What became of the new clothes?” asked the emperor. Tesshu responded back, “They went to you majesty’s children.”

3a. Faça, ao invés de pedir.

“…uma vez, um rapaz jovem e forte aproximou-se do meu carro parado no semáforo e pediu-me um peso. Eu lhe respondi: ‘Dou-lhe vinte pesos se você me der seu dedo’. ‘Meu dedo?’ – respondeu surpreso – ‘como vou lhe dar meu dedo?’ ‘Bom’ – lhe disse – ‘dou-lhe cem pesos se me der a mão’. ‘Mas nem louco…’- respondeu o rapaz. ‘Então lhe dou cinco mil pesos por seu braço…’- insisti na oferta e frente à surpresa do jovem, expliquei-lhe: ‘Você tem uma fortuna, dê-se conta, por que não a usa em vez de andar pedindo?’ [Masafumi Sakanashi, Aikido – o desafio do conflito, Editora Pensamento, 2003, p.74]

4a. Você recebe o que merece, não necessariamente o que deseja.

Quando Deus criou o macaco, disse-lhe: “Serás macaco, saltarás de árvore em árvore, viverás fazendo graça para que os demais se divirtam, serás macaco e viverás durante vinte anos“. O macaco levantou o olhar e pediu a Deus: “Mas, Senhor, vinte anos fazendo tantas palhaçadas, por que não me tiras dez anos?” Deus aceitou e foi assim que, desde então, o macaco vive dez anos. Quando Deus criou o cachorro, disse-lhe: “Serás cachorro, comerás as sobrs do homem, cuidarás da casa do homem, serás cachorro e viverás vinte anos“. Então o cachorro elevou seu olhar e pediu-lhe: “Mas, Senhor, vinte anos comendo sobras e cuidando de casas? Tira-me dez anos“. E desde então o cachorro vive dez anos. E quando Deus criou o burro, disse-lhe: “Serás burro, trabalharás de sol a sol, outros guiarão teu destino, levarás todas as cargas em teu lombo, serás burro e viverás sessenta anos“. E o burro, por sua vez, pediu a Deus. “Mas, Senhor, viverei trabalhando tantos anos sem ter minha própria decisão e todos os dias de sol a sol? Sessenta anos? Por que não me tiras quarenta?” E desde então o burro vive vinte anos. Então Deus criou o homem e lhe disse: “Serás homem, te darei a inteligência suprema entre os animais, capacidade para a criação, organização com liberdade, serás homem e viverás vinte anos“. E o homem, como os seus anteriores, também reclamou uma modificação de sua condição: “Mas, Senhor, és tão bondoso, me dás tantas riquezas, mas tão poucos anos, não podes me dar os quarenta do burro, os dez do cachorro e os dez do macaco?” Foi desde então que o homem vive vinte anos de homem, em sua livre juventude, quarenta de burro, trabalhando de sol a sol e quando se aposenta, dez anos de cachorro e dez anos de macaco, cuidando das casas dos filhos e fazendo palhaçadas para que os netos se divirtam. [Masafumi Sakanashi, Aikido – o desafio do conflito, p.76-7, 2003]

5a. Uma breve reinterpretação dos princípios de Musashi Miyamoto para a monografia.

Eis os nove princípios escritos pelo mestre da arte da luta com duas espadas explicados por mim para o aspirante a um trabalho monográfico.

1. Pense sem qualquer desonestidade – Uma monografia jamais será concluída se você não for honesto com você mesmo ou com seu orientador. Ou melhor, ela pode até ser “concluída”, mas a sua reputação será a pior possível.

2. Avance no caminho – “Nunca é suficiente” deveria ser uma expressão constante na mente de quem faz um trabalho científico. Por mais que devamos, com certeza, estabelecer limites, o fato é que mesmo uma monografia entregue não esgota o tema. Portanto, cabe a cada um entender seus próprios limites e trabalhar com (e sobre) eles.

3. Conheça um pouco de todas as artes – A especialização é necessária, mas a variedade de problemas que enfrentamos exige que saibamos um pouco de tudo (e muito de algumas poucas áreas). Imagine uma monografia sobre o problema da sustentabilidade da dívida pública no Brasil Imperial que não tenha se baseado em fontes históricas que digam respeito à economia mundial da época.

Outra forma de pensar neste princípio é: imagine uma monografia de economia sem teoria econômica e só com uma listagem de fatos.

4. Conheça o caminho de todos os ofícios – Não custa pensar neste princípio como um alerta: orientando, pense no seu orientador e, orientador, pense no seu orientando. Entenda o trabalho do outro para não fazer bobagem. Um aluno pouco sábio entrega rascunhos vagabundos achando que tem um capítulo.

Outra forma de pensar neste princípio é: entenda um pouco de todas as possibilidades de trabalho de um economista. Isto não apenas te ajuda profissionalmente, mas também é um auxílio para entender melhor aspectos do problema que você estuda na monografia.

5. Conheça as vantagens e desvantagens de tudo – Eis o custo de oportunidade do seu tempo explicado por um samurai (há muito mais tempo do que você imagina…).

6. Desenvolva um olhar de discernimento em todos os assuntos – Como já dito, a monografia nunca é perfeita. Quanto mais discernimento você tiver sobre cada detalhe de seu texto, melhor poderá se preparar para corrigí-los e também para defendê-los no dia fatídico…o da defesa, claro!

7. Entenda o que não pode ser visto pelos olhos – Uma monografia não é uma vitória apenas da mente e das mãos, mas também de seu trabalho no que não se vê. A administração do tempo, inteligência e outras habilidades podem parecer invisíveis, mas estão lá e interferem no seu trabalho.

8. Preste atenção mesmo nas pequenas coisas – Seu orientador vai pegar no seu pé em cada pequeno detalhe. Preciso dizer que se antecipar é uma sábia atitude?

9. Não se envolva com o que não é prático – Monografia que não tenha uma pergunta, não sai do lugar. Pergunta que não seja “prática”, pior ainda. Por isso, em Economia, estudamos métodos quantitativos. Eles servem para sua vida toda e, um bom teste inicial de se você aprendeu realmente a usar estes métodos é na monografia.

(*) Os princípios estão em Wilson, W.S. O Samurai – a vida de Miyamoto Musashi, Estação Liberdade, 2006,p.160. Obviamente, você o encontra no famoso O livro dos cinco anéis de Musashi, no capítulo denominado “livro da Terra”.

6a. Nem sempre o orientador vai te ajudar de forma óbvia.

Recentemente, um mestre que tive em minha graduação (tive apenas uns três ou quatro professores dignos do título espiritualmente mais elevado de “mestre” naqueles tempos de estudos iniciais…) presenteou-me com um livro sobre física e matemática. Trata-se de uma coletânea bastante diversificada e de fácil acesso ao leitor menos sofisticado nestas áreas (é o meu caso, obviamente, sem nenhuma falsa modéstia).

Um dos seus textos é uma reprodução do primeiro capítulo do livro Nemesis, de Richard Muller, no qual o autor conta como seu orientador (ou “mentor”, para usar um termo talvez mais adequado porque nem sempre somos orientados por nossos mentores) induziu-o a desenvolver um modelo para um artigo interessante, mas ateórico, resultando, enfim, em uma controversa nova hipótese sobre a extinção dos dinossauros.

Em resumo, Muller recebeu de Luis Alvarez um artigo de dois paleontólogos (Raup e Sepkoski) para que fizesse uma crítica. Alvarez deu a entender que achava o artigo muito ruim quando, na verdade, pensava o oposto.

Não poderei resumir tão bem o capítulo aqui, mas a abordagem, em termos das dicas para a monografia desta página, é a seguinte: muitas vezes o orientador deve induzir o orientando a dar o melhor de si, de formas inusitadas.

No texto, Muller se vê, em vários momentos, angustiado, ao imaginar que seu ídolo, Alvarez fosse um arrogante que apelava para argumentos de autoridade e não atentasse para evidências empíricas. Ele relembra:

He was claiming authority! Scientists aren’t allowed to do that. Hold your temper, Rich, I said to myself. Don’t show him you’re getting annoyed. [Muller, R. “Cosmic Terrorist”. In: Ferris, T. (ed) The World Treasury of Physics, Astronomy, and Mathematics. Little, Brown and Company, Boston, 1991, p.265]

Eis uma lição adicional, além da óbvia: cuidado ao escolher seu orientador. Caso ele apele para argumentos de autoridade, este será o código para você desafiá-lo com algo mais sólido, cientificamente falando.

No caso de Alvarez, foi intencional. Ele fingiu usar argumentos de autoridade, como disse antes. Contudo, caso seu orientador apele para este argumento com frequência, talvez valha a pena rever sua escolha de modelos profissionais. Afinal, a sabedoria não vem com a autoridade. Ela parece vir com a idade, mas não como imaginamos (talvez esta seja uma outra lição de vida pouco compreendida: a sabedoria que vem com a idade nem sempre é a que achamos compreender bem, mas a que nos pegamos praticando quase sem perceber…).


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